Uma mente vazia não conhece limites
Esvaziar a mente não significa não ter pensamentos ou abandonar as responsabilidades que devemos cumprir. Nem significa suprimir pensamentos e sentimentos para que não surjam. Significa ver a ganância, o medo, a dúvida e a teimosia preenchendo a mente tal como são, sem considerá-los como se fossem tudo o que somos.
Quando uma pequena divisão está cheia de objetos, torna-se difícil até abrir a porta ou movimentar-se lá dentro. Quando o que é necessário se mistura com fardos que já não são utilizáveis, torna-se difícil decidir o que fazer primeiro. A mente é a mesma. Se continuarmos a acumular palavras do passado, preocupações com o que ainda não aconteceu e pensamentos de comparação, torna-se difícil ver claramente o que está diante de nós agora.
O espaço aberto não é incompleto por estar vazio. Por ser aberto, pode receber nuvens, vento e luz solar sem ser obstruído por nenhum deles. Uma mente clara é a mesma coisa. Quando não insistimos que apenas um pensamento está certo, há espaço para ouvir outra pessoa e espaço para escolher uma ação mais sábia antes de sermos arrebatados pela emoção.
A nossa verdadeira natureza não é um objeto trazido de fora e colocado na mente. A ganância, a raiva e a ilusão apenas a obscurecem por algum tempo. Quando as reconhecemos e deixamos ir, a sabedoria e a compaixão tornam-se naturalmente visíveis. Em vez de nos obrigarmos a tornar-nos alguém especial, a prática remove, um por um, o que obscurece a clareza já presente.
Isto não significa considerar todos os desejos ou planos intrinsecamente maus. Pensamento e planeamento são necessários para cuidar da vida, cumprir as nossas promessas e estabelecer objectivos dignos. Deveríamos perguntar, contudo, se esses pensamentos e planos ocuparam toda a mente e nos impediram de ver outras possibilidades. Precisamos de sabedoria para cuidar cuidadosamente do que é necessário e deixar ir o que já passou ou está além do nosso controlo.
Quando a mente parecer complicada, não tente resolver tudo de uma vez. Faça uma pausa por três respirações lentas e observe o pensamento que ocupa mais espaço. Pergunte se é facto, medo ou apego e depois escolha a ação que deve ser tomada agora. O resto pode ser colocado no espaço aberto durante algum tempo.
O espaço aberto da mente não é um vazio niilista; é liberdade. A partir desse espaço podemos ver de forma mais ampla, ouvir com mais carinho e agir com mais precisão. Uma mente vazia não conhece limites. A partir de uma mente desobstruída por qualquer coisa, a nossa sabedoria e compaixão inatas podem tomar forma na vida diária.
Quando a mente está cheia de ganância, dúvida, apego e pensamento discriminador, é difícil ver o caminho certo a seguir. Esvaziar a mente não significa abandonar a responsabilidade; significa não confundir um pensamento ao qual nos apegamos com todo o nosso ser. Quando deixamos algo ir, abre-se um espaço como o céu aberto, e a nossa sabedoria e compaixão inatas tornam-se visíveis.