Aprendendo a impermanência, vemos a natureza original
Quando estudamos o Budismo, às vezes encontramos ensinamentos que soam opostos uns aos outros. Por um lado, ouvimos que todas as coisas mudam, que o apego traz sofrimento e que não existe um eu fixo. Por outro lado, ouvimos que todo ser tem a natureza de Buda e que as virtudes do nirvana são permanência, alegria, verdadeiro eu e pureza. Ouvidos apenas na superfície, pode parecer que colidem.
Mas estes dois ensinamentos iluminam o mesmo lugar de direções diferentes. O estudo da impermanência, do sofrimento e do não-eu elimina o hábito de se apegar aos fenômenos. Corpo, sentimento, relacionamentos e pensamentos continuam a mudar. Quando consideramos o que muda como se fosse eternamente meu, a mente logo fica presa ao sofrimento. Portanto, primeiro devemos ver o que muda conforme muda.
Este estudo é como um remédio amargo. A medicina é amarga, mas é necessária para curar doenças. Enquanto a doença persistir, poderemos precisar de fazer uma pausa no que queremos comer e esperar que o medicamento faça o seu efeito. Da mesma forma, quando o veneno do apego permanece na mente, o ensinamento “isto também muda; isto também não pode ser mantido” pode, a princípio, ter um sabor amargo. No entanto, o ensinamento não nega a vida. É um meio hábil que cura a doença do apego.
Quando o apego se solta aos poucos, outro lugar fica visível. Isso não significa que os fenômenos sejam permanentes. Significa que quando não nos apegamos aos fenómenos em mudança, a sabedoria que conhece a mudança torna-se clara e a natureza originalmente clara aparece. A natureza de Buda não é um eu duro que possuo. É a possibilidade de despertar que pode surgir em qualquer pessoa quando o apego se dissipa.
Portanto, as três marcas e os ensinamentos da natureza búdica não estão em conflito entre si. As três marcas curam a mente gananciosa, e a natureza búdica mostra o lugar luminoso para o qual essa cura aponta. Quando realmente aprendemos a impermanência, não nos tornamos niilistas. Tornamo-nos mais profundamente livres. Quando liberamos o que precisa ser liberado, o brilho que já estava presente fica um pouco mais claro.
Os ensinamentos da impermanência, do sofrimento e do não-eu não têm como objetivo tornar a vida vazia. Eles são meios hábeis que permitem que a mente descanse do apego a fenômenos mutáveis e veja sua natureza originalmente brilhante. À medida que a mente gananciosa se afrouxa, a natureza de Buda aparece mais claramente.